Comecei este texto demasiadas vezes, apaguei outras tantas, houve momentos em que ficou escrito num rascunho durante meses para não sobreviver a uma nova leitura, para não me sobreviver. Escrevo e penso que isto, se aqui ficar, vai ultrapassar a minha existência e, talvez não só por isso, eu tenha sempre tanta hesitação no que partilho com palavras, mesmo sabendo que no final tudo será apenas um jogo de espelhos.
É engraçado pensar que, para mim, as palavras escritas têm esse peso lapidar, uma vez impressas podem ser revisitadas, mas com a mesma sensação de entrar num cemitério e olhar a fotografia de alguém que fazia parte de nós, o que ali está não é o que vivemos. Por isso, escrevo para me lembrar e para pensar sobre o que se transforma no meio do frenesim, tento com este exercício ordenar o que muitas vezes anda aos trambolhões numa espécie de mala de carro, em que vamos colocando coisas soltas e que assim que iniciamos viagem percebemos que elas se misturam todas a cada curva e rotunda.
Mas voltando às palavras escritas, custa-me sentir que muitas delas sejam tão maltratadas, que outras estejam a ser substituídas por símbolos, ícones, e entristece-me que as tornem ocas, que as mastiguem e as cuspam para o ar, para o chão. Muitos não querem saber sequer como se escrevem, outras palavras não são usadas porque não se quer que as pessoas pensem, quanto mais simples a linguagem mais pessoas ouvem - que ideia tão triste esta de simplificar para melhor se entender.
Se tivermos sempre acesso a uma versão simplificada das coisas até onde conseguimos realmente ver? Mais importante, parece-me, se existir uma simplificação o quanto conseguimos deveras sentir? E sentindo, como nos conseguiremos expressar de forma precisa, se apenas tivermos uma mão cheia de palavras?
Mais uma vez hesitante, penso agora em várias referências, em textos lidos que falam melhor do que eu sobre este tema, que mostram a beleza das palavras e do que podemos fazer com elas, penso na poesia. Perco a linha que criei, paro para atender uma chamada, para reler e há novas partes cortadas, sempre a tentar deixar apenas o essencial, tentar não me perder e percebo que este exercício é uma rarefação do meu pensamento. O pensamento é uma queda livre para o fundo de nós próprios. O pensamento é uma permanente queda para novos horizontes, aliás:
“Os pensamentos caem sólidos, mas estes sentires, afectuosas tonalidades de luz-dor, luz-alegria, sombra-prazer ou angústia, a pressão contida em cada impressão, na sua figuração que não chega a solidificar, caem escorrendo, de maneira gerúndia, como um tempo de esguelha, uma chuva morna que abranda, como quando se transforma em neve e cai em flocos quase sólidos, mas uma neve peculiarmente morna, em transição de estado e de temperatura, as coisas a serem, as palavras a doerem, as luzes de dentro a banharem a queda como um manto.”1
Quando pensamos precisamos de palavras para o diálogo interno, mas é mais sobre como construir e organizar, dizem que é estruturar porque há método e espera-se que todos sejamos metódicos quando analisamos o nosso pensamento. Ser metódico pode ser útil se quisermos criar distância sobre aquilo que analisamos, há um afastamento da realidade e passamos a usar palavras como optimização, produtividade, performance, eficácia, rentabilidade e é aqui que o léxico contrai o meu pensamento.
Quantas palavras nos paralisam?
Desde que aprendi a escrever e a ler fascina-me descobrir palavras novas, dizer pela primeira vez, saborear como soa e com se diz, perceber o seu significado e esperar uma oportunidade para a usar, conheço muitas que apenas li em livros, outras que caíram em desuso e muitas que ainda não me cruzaram o olhar. Quando uma palavra nova me aparece sinto uma comoção, há nela um novo mundo de possibilidades de combinação e a esperança de talvez uma nova perspectiva para se pensar. Mas talvez seja apenas a minha forma de fugir a pensar com as palavras que conheço sobre as inquietações que antecedem o princípio, o verbo.
Nesta arte da fuga encontrei o desenho, sentindo que consigo uma linguagem mais clara através das linhas, manchas, tramas precisamente porque me é mais fácil encontrar uma emoção num gesto, procurar o equilíbrio numa composição cromática, expor-me sem dizer uma palavra. Contudo, muito do que faço parte do que leio, parte das palavras e para onde elas me levam, o que convocam. Não procuro substituir as palavras, apenas quero “dizer” coisas sem as usar, talvez sinta que mesmo me expondo no que desenho não é uma nudez tão explícita, ou talvez aqui não me tenha munido de artificialidade que crie uma opacidade entre o que escrevo e o que sou.
Quantas palavras se tornaram vazias?
O presente tornou-se um lugar muitas vezes estranho, talvez seja por isso que muitos de nós vivam no passado nostálgicos, outros ansiosos no futuro e ainda há quem viva em demissão, em parálise, em acédia. No meio desta estranheza presente sentimos que estamos perdidos na quantidade de tudo que aparece em qualquer formato, é como se de repente todos estivéssemos a falar ao mesmo tempo em todo o lado e a todo o momento, só porque podemos. É aqui que as palavras começam a sua morte lenta.
“Se usas o mesmo adjectivo para descrever um pôr-do-sol, um autocarro atempado, uma promoção no emprego e o desenho do teu filho - algo em ti já está morto.”2
Não me consigo recordar, em que livro li, a ideia de que se repetirmos a mesma palavra de uma forma compulsiva e infinita, esta acaba por perder o sentido quando dita, que perde também a sua forma na articulação, que se deforma na nossa boca. Ocorre-me agora a imagem, que este presente é como alguém que coloca uma pedra na boca e a desfaz lentamente entre os dentes. O problema não são as palavras, é a falta de silêncio entre elas. O problema não é as pessoas falarem, é não pararem de falar.
Não dizer nada não é o mesmo que não ter nada para dizer, é apenas escolher fazer um bom uso das palavras.
Para os que chegaram até aqui deixo uma viagem até 1993 e esta Disarm dos The Smashing Pumpkins
Excerto do texto “A Queda” de André Barata, no livro “Ressonância e Queda”, Editora Sistema Solar, 2025. Recomendo este texto vertigem, nele e na sua sequência incrível sentimo-nos a cair, de parágrafo em parágrafo.
Excerto do livro “Ecologia” de Joana Bértholo, Editorial Caminho, 2018


Gostei mesmo muito de ler este texto. Acho que escreves com uma honestidade muito bonita sobre a relação com as palavras, a hesitação de deixar algo escrito e o peso que isso pode ter.
Gostei especialmente da reflexão sobre a simplificação da linguagem. Quando nos faltam palavras, também nos faltam formas de pensar, de sentir e de explicar o que nos acontece.
A ligação que fazes entre a escrita e o desenho também me parece muito forte, porque mostra que há coisas que talvez não se digam melhor com menos palavras, mas com outras linguagens.
Parabéns!
Linea animi vestigium est, non omnia verbis.
que belo texto, Marta!